A disputa sem fim no jogo político do Cruzeiro

Foto: Bruno Haddad / Cruzeiro

O Cruzeiro iniciou o ano de 2020 em uma crise nunca vista antes em sua história quase centenária.

Após várias gestões temerárias que, apesar de conquistar títulos como o bicampeonato Brasileiro, em 2013 e 2014, e bicampeonato da Copa do Brasil, em 2017 e 2018, jogaram o clube em um caos político, administrativo e financeiro, o péssimo trabalho da diretoria encabeçada por Wágner Pires de Sá, Itair Machado, Sérgio Nonato, dentre outros, culminou com uma grande mancha negativa: o rebaixamento para a série B do Campeonato Brasileiro.

Junto a isso, a situação do Cruzeiro se deteriorou nos últimos anos. As denúncias veiculadas no Fantástico foram apenas a ponta do iceberg e, desde então, a cada dia uma nova notícia surge para assombrar a torcida cruzeirense.

Dívidas intermináveis com diversos clube e junto à FIFA, salários e direitos de imagem atrasados, contratos mal elaborados e prejudiciais à instituição, os clubes sociais jogados às traças. Chegou ao ponto de faltar alimentação para os jogadores de categoria de base. Totalmente inaceitável para um clube de tamanha grandeza e importância no futebol brasileiro.

A saída da antiga diretoria foi inevitável, mas demorou mais do que o necessário. A chegada de um Conselho Gestor, chamado de conselho de notáveis, trouxe uma réstia de esperança para o combalido torcedor. O início animador encontrou, de pronto, alguns obstáculos. Dois dos principais nomes se afastaram da diretoria transitória: Pedro Lourenço, dono do Supermercados BH e um dos principais investidores do Cruzeiro, e Vittorio Medioli, prefeito de Betim, dono do Sada e responsável pelas decisões iniciais do conselho.

Ainda assim, fora de campo, o trabalho administrativo começava a dar frutos. A readequação salarial de jogadores que aceitaram a missão de reconstrução, além da contratação de alguns jogadores dentro da realidade financeira do clube, deu um fôlego financeiro. A folha de pagamento sofreu uma drástica redução. Ademais, diversas decisões foram tomadas, no sentido de aumentar a transparência, fortalecer o jurídico, restabelecer uma boa imagem do Cruzeiro no mercado.

Ao mesmo tempo, os problemas com a operacionalização de novas categorias de sócio torcedor, como o Sócio Reconstrução, não ajudaram ao clube em angariar novos sócios e em aumentar a receita. O número de novas adesões está bem aquém do esperado e do que o Cruzeiro precisa. 

Um grande problema enfrentado está na gestão de futebol. Algumas decisões foram imensamente criticadas pelo torcedor, como a manutenção do técnico Adilson Batista, a chegada do diretor de futebol Ocimar Bolicenho, e contratações de qualidade questionável, como João Lucas, Machado, Jhonata Robert, Roberson e Everton Filipe. Para uma equipe com tantos problemas financeiros, não parecia certo gastar tanto em ativos duvidosos. 

O Conselho Gestor deixa transparecer que falta alguém que entenda, de fato, a condução de um departamento de futebol. São muitas vozes querendo mandar e, na realidade, não há comando algum. E, quando não há uma figura de autoridade, alguém responsável pela tomada de decisões, a tendência é a de que todo mundo queira mandar um pouco. 

Enquanto o Cruzeiro procura um caminho para a reconstrução, o âmbito político continua bem conturbado. Há rumores, inclusive, de que a famigerada Família União ainda busca uma composição em alguma das chapas concorrentes, algo que seria um ultraje por tudo o que fizeram na última gestão. 

Para complicar ainda mais a nossa situação, as disputas políticas não darão trégua tão cedo, nem mesmo com a pandemia de coronavírus. Na verdade, a tendência é que piorem consideravelmente durante o ano de 2020. No ano mais complicado de sua história, o Cruzeiro precisará enfrentar dois períodos eleitorais. O primeiro, marcado para Maio, elegerá o presidente que completará o mandato de Wágner Pires de Sá. O segundo, ainda com data a definir, elegerá o presidente para o triênio 2021-2023. 

E, com a saída do técnico Adílson Batista e do diretor de futebol Ocimar Bolicenho, e a permanência do Conselho Gestor apenas até o período eleitoral, fica a expectativa de como o futuro do clube será conduzido. Sem alguém competente na gestão de futebol para organizar o comando do Cruzeiro, não há muita esperança de que algo diferente seja feito. Por outro lado, a falta de um presidente também é clara, no momento. 

Contudo, a politicagem tende a nos trazer imensos prejuízos. O pleito eleitoral contará com 3 candidatos: Sérgio Santos Rodrigues, Giovani Baroni e Ronaldo Granata (isso mesmo, o ex-vice presidente na antiga diretoria). Por enquanto, sem participação de membros do Conselho Gestor nessa composição, já que o antigo candidato, Emílio Brant, anunciou sua desistência. 

Ao mesmo tempo, ainda teremos a disputa pelas vagas no conselho deliberativo; outro ponto crucial para nosso caminho. 

Essas disputas serão sadias? Serão benéficas para o futuro do clube? Vamos acompanhar os próximos passos. 

O caminho para a reconstrução é muito complicado. A tarefa de recolocar o Cruzeiro rumo às glórias e às conquistas será hercúleo. Apesar da boa vontade dos atuais gestores, há muito a se corrigir para que o nosso principal objetivo do ano seja conquistado. Será que vem um aprimoramento do estatuto no meio do caminho?

O pleito eleitoral do Cruzeiro escancara que o maior interessado pela reconstrução, o torcedor cruzeirense, será deixado novamente de lado para a disputa de egos, para um sistema feudal que perpetua o poder entre as mesmas pessoas. O torcedor não tem voz, o torcedor não tem vez dentro do clube. 

Aparentemente, a torcida carregará a cruz da reconstrução, enquanto a espada ficará na mão de poucos, como sempre. Quando a bola voltar a rolar, nosso papel continuará sendo o de torcedor (na arquibancada, se tudo der certo).

Vida que segue... Enquanto isso, quem sabe ainda tenhamos um Cruzeiro gerido por todos nós. Naquele futuro, tão distante. Não custa nada sonhar.

Pelo Cruzeiro, tudo, do Cruzeiro, nada.

PS: Fique em casa, se puder!

12 comentários:

  1. Gastar em ativos duvidosos? O quanto foi gasto nas contratações mencionadas na matéria?

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  2. O pior dessa história é que a policia civil e o Ministério Público levam um tempo surreal para apurar os crimes praticados pelos antigos integrantes da diretoria e punir os responsáveis. Pelo visto,as vantagens de ser presidente ou diretor em clubes de futebol parecem ser muito melhores do que ganhar sozinho na MEGA-SENA.

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    1. Concordo plenamente com esta impunidade. Não são presos e nem devolvem o dinheiro. E tem alguns "Cara de Pau" que não querem sair do Clube!!!!Enquanto a Policia Civil e o MP não derem uma solução para o caso, o Cruzeiro não chegará a lugar nenhum.... só descendo mais

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  3. Concordo plenamente, mas gostaria de saber o que leva uma pessoa a candidatar-se a presidente de um clube ou Presidente de um Conselho Deliberativo. Amor a Camisa???, Você colocar em risco os seus familiares, serem alvos de xingamentos, ofensas morais ou agressões físicas? Ou sera, que existe alguma coisa escusa que o Presidente passe por cima de tudo isso para se beneficiar. Torço para não estar errado, mas ninguém entra nesse tipo de função só por amor a camisa, seja lá qual for o clube, tem que haver algo mais, não sei qual, mas que existe, existe. Sei que estou errado mas esse parágrafo diz tudo "O pleito eleitoral do Cruzeiro escancara que o maior interessado pela reconstrução, o torcedor cruzeirense, será deixado novamente de lado para a disputa de egos, para um sistema feudal que perpetua o poder entre as mesmas pessoas. O torcedor não tem voz, o torcedor não tem vez dentro do clube." Será que vale a pena doar o sangue pela instituição se não temos voz ativa no clube. Será que o cruzeiro continuará com o sistema feudal, só um grupo usufruindo das beneficias. A cada dia fico sem esperanças com esses dirigentes.

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  4. O começo do seu texto tem um equívoco: associar a quebradeira com títulos de 13 e 14. Isso é falso, o problema começa em 2015 quando Gilvan começa a fazer absurdos, culminando com a a entrada do Wagner pires de Sá que colocou como homem mais poderoso Itair Machado, o cara que afundou o Ipatinga. Veja as decisões financeiras do período, os contratos, os desvios, a os velhos em fim de carreira com salários altíssimos, o cabide de emprego. Cruzeiro acabou, virou time pequeno, mas quem vê o nível das pessoas que comandavam o clube, o que esperavam? O Atlético busca ter ativo, shopping, estádio, o cruzeiro, só passivo, apenas como ativo um clube decadente

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  5. Acho que foi praga do Clube Atlético Mineiro, depois que demos o chapéu neles na contratação do fred, tudo deu errado... inclusive fomos condenados a pagar 10 milhões de reais para eles. E pensar que comemoramos demais essa contratação!!!Acho que ano que vem estaremos na série C, enquanto nosso maior rival terá um estádio próprio, shopping próprio, um CT invejável etc. E a gente fica revivendo do passado com os nossos troféus!! Nosso futuro será nebuloso... se existir né?

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    1. Esse é o problema, comemorar a contratação de um jogador decadente, pagando salário de jovem craque. Sim eles estão formando patrimônio, e na gestão Wagner cruzeiro fez dívida gastando com jogadores ultrapassados, com empregados e empresários. Cruzeiro foi tratado com órgão público...e vamos ser sinceros acabou!! A estrutura política do cruzeiro afastou dois grandes empresários: Pedro e mediolli. Outros grandes empresários cruzeirenses querem distância do clube. É a BH da década de 20 do século passado comandando os destinos do cruzeiro, decadente e jogando bocha

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    2. Nebuloso é a sua cabeça e o seu modo de pensar! Sim, houve muitos erros, mas o pessimismo é a derrota antecipada! Nem de longe isso passa ou deve passar pelos administradores de clubes, pois profissionais no ramo! A linha que separa o sucesso absoluto do fracasso absoluto é muito tênue, e é uma linha comportamental. O gigante se ajoelha humildemente e desce, mas "cair" é para os fracos de alma, espírito e pensamento.

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    3. Acho que você ainda não percebeu uma coisa..o Cruzeiro já caiu, e não dá sinais que vá se levantar

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  6. A torcida tem que ter voz ativa e ajudar com comprá de camisa ou sócio torcedor. Mas se continuar do jeito que está. Vai afastar maos ainda, e não vai ter o apoio do torcedor. A não ser que aconteça um milagre com esses jogadoresfracos.

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  7. Nosso clube serviu de trampolim pros Perrelas se tornarem milhonarios e pronto.

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  8. Diretores e Conselheiros são o principal empecilho à reconstrução; embora aleguem "serviços prestados" todos são cúmplices, por ação ou omissão, da má gestão que arrasou o Cruzeiro. O clube está cheio de aproveitadores que adoram ingresso e material esportivo grátis, custeio de caravanas, bandeiras e instrumentos musicais, contratos obscuros, atividade de cambista... Ajudar a pagar as contas não é prioridade para os que se acham "mais cruzeirenses que os outros". Zezé Perella, Alvimar, Gilvan de Pinho e Wágner Pires realizaram gestões que deram grandes prejuízos e esses conselheiros fajutos, que deveriam fiscalizar, endeusaram essa turma aprovando balanços sem nada falar sobre o crescimento da dívida. Aí está o resultado: clube endividado, rebaixado, envergonhado e sem credibilidade. E os puxa-sacos de sempre fazendo de tudo para a farra continuar e para manter a torcida longe da fiscalização e das decisões. É tempo de cair na real; esse negócio de 9 milhões de torcedores é uma balela (pois o clube não pode contar com a maioria), mandatários, conselho gestor e conselheiros sempre souberam e encobriram a real situação financeira do clube e nenhuma reconstrução está em curso (ninguém consegue citar uma contribuição interna para a apuração das irregularidades, o que, aliás, é atribuição dos omissos que integram o conselho). A dívida saltou de 29,5 milhões em 2004 para algo perto de 1 bilhão em 2020 e os irresponsáveis que criaram o caos continuam sendo tratados como "grandes cruzeirenses"...

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